O matador


Anabela Kohlmann Ferrarini

Enquanto caminhava pelas calçadas estreitas, naquele horário que os antigos insistem em chamar de lusco-fusco, fui compreendendo os alertas que recebera sobre os riscos de andar naquele bairro, acompanhada ou a sós, à noite ou durante o dia. A cada esquina o perigo era iminente, mas eu precisava encontrá-lo, precisava dos seus serviços, e sabia que ali era o seu habitat, todos o conheciam e seus artifícios dominavam a região.
Algumas pessoas que passavam por mim murmuravam suas histórias, e pude perceber que lhe devotavam uma gratidão secreta, livres de seus fardos por intermédio das artimanhas dele. Homens e mulheres de idades e feitios distintos desejavam ter com ele um momento, pois tinham uma pendenga a resolver e, quem sabe ali, com seu auxílio, encontrassem uma resolução. Ele oferecia seus préstimos a todos, desde que fosse bem pago por isso, é claro.
Outros o recriminavam e temiam, julgavam perigoso o contato, a inevitável dependência que viria depois. Sim, toda vez que se vissem diante de um impasse, acabariam por chamá-lo. Não, não desejavam isso para si. Havia também aqueles que o desprezavam, sentiam náuseas tão logo percebiam no ar o penetrante cheiro da sua chegada, e fugiam, apressados. Queriam distância daquela névoa que transtornava os sentidos.
Embora recém-chegada à cidade, reconheci facilmente seus redutos, os locais que frequentava; em qualquer lugar eles têm uma certa identidade, marcas registradas que o põem em evidência, mas sem alarde. Fui me sentindo como num filme noir em preto e branco, e a urgência me fez adentrar ao pequeno estabelecimento, cujas portas, num tom verde escuro, no estilo bang-bang, favoreceriam uma eventual fuga. Certamente ali eu o acharia e seria fácil contratá-lo para dar cabo dos meus problemas.
Escolhi um canto discreto, sentei-me à mesa de madeira acastanhada, suave ao toque. Recostei-me ao espaldar, ereta, e minha atitude suspeita chamou sua atenção.
Não tive sequer tempo de pensar na escolha que estava prestes a fazer, pois ele logo se colocou diante de mim: "Negro como o diabo, quente como o inferno, puro como um anjo e doce como o amor"¹. No primeiro gole, meus infortúnios foram mortos; meus medos, eliminados da face da Terra; minhas angústias, exterminadas.
Pelo menos, enquanto durasse minha xícara de café.

¹Charles-Maurice de Talleygrand-Perigórd, Primeiro-Ministro da França, sob Luís XVIII, por volta de 1815.

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Anabela Kohlmann Ferrarini

E-mail: anabelaferrarini@hotmail.com

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