Mademoiselle Renault


Anabela Kohlmann Ferrarini

Era um dia muito quente, mesmo antes do raiar do sol. Na rua deserta, viu um cão enorme surgir, rosnando, mostrando os caninos. Acuada, passou por baixo de uma cerca, refugiou-se atrás de um botijão de gás e adormeceu. Acordou com um funga-funga abafado. Unhas arranhavam a porta de metal e janelinhas de vidro. Três focinhos curiosos apareceram. Fez a única coisa que sabia: miou. Um miado baixinho, suficiente para que as cachorras eriçassem os pelos e latissem alto, chamando a atenção do dono, que preparava o primeiro café preto do dia. Atraído pelos latidos, abriu a porta para que saíssem. Cercaram o botijão, ganindo e tentando alcançar atrás dele. Na penumbra, Wilson percebeu uma sombra e imaginou ter visto um rato. Atiçou as cachorras, que farejaram pelo quintal, sem nada encontrar. Desinteressadas, esticaram-se no chão para uma soneca, que perseguir ratazanas dá uma canseira danada. Ele bebeu o café sem pressa, prendeu a cachorrada nos fundos da casa. Foi então que ouviu um miado fraco. Deu-se conta que o rato era, afinal, um gato. Procurou daqui e dali e nada. Talvez o bichano estivesse no vizinho. Arrumou-se, entrou no carro. O painel anunciava: 28º, às 7h. Cumpriu o itinerário: coleta de sangue, banco, cartório. Por fim, ferragem. Entrou no carro, a direção tinia, 39º. Na volta, parou para comprar abacaxis. Em frente à casa viu, pela janela aberta, a esposa ao computador. Estacionou e contou a ela e ao filho sobre o miado suspeito. Envolveram-se na rotina e o mistério foi esquecido. Enquanto preparavam a janta, Mateus veio correndo, anunciando:
- Pai, pai, as cachorras tão doidas, querem entrar debaixo do carro! Será que o gato tá lá?
Pai e filho enfiaram-se sob o carro. Perto do motor, viram um rabinho pendurado, imóvel. O guri buscou leite, para atrair o bichinho. Logo voltou tristonho, querendo uma sacola:
- Tá morto, mãe, não se mexe, nem com o leite perto dele. O pai vai tirar ele de lá. Acho que o gatinho morreu de calor, coitado, se escondeu no motor e não conseguiu mais sair.
Assim que o pai agarrou a pequena cauda, ouviram um miado agudo. Estava vivo o bichano! Ainda filhote, tinha o pelo tricolor: preto, branco e cinza. Ferido, caminhava de um jeito torto. Deram banho, leite, afago, abrigo. Descobriram que era uma fêmea. A mãe, apesar do medo antigo de felinos, aceitou que ela ficasse uns dias. Gata e menino se afeiçoaram, a bichinha foi ficando, deu amor e ganhou nome: Mademoiselle Renault, sobrevivente de uma aventura cheia de dentes afiados e calor, a bordo de um Duster marrom. Mas pode chamar de Diana. Ou Gata. Ou Gorda. Ela vem. Se quiser, é óbvio.

* Crônica Destaque na Antologia "As sete almas dos gatos", Selo Offlip (2026).

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Anabela Kohlmann Ferrarini

E-mail: anabelaferrarini@hotmail.com

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